O EVENTO

Qual a diferença entre um objecto produzido e um objecto construído? Como é que as mãos e as mentes por detrás de uma obra influenciam a nossa maneira de a olhar? Estaremos a ser sufocados por um mundo impessoal e massificado? Ou conseguiremos, apesar de tudo, encontrar cada um uma visão única e original, uma interpretação própria e íntima de “coisas” feitas para não dar que pensar? Até que ponto nos é possível estabelecer relações e conexões com outros a partir de objectos expostos?
Todas estas perguntas foram abordadas quando pensámos esta exposição. Vivemos num mundo onde, cada vez mais, se produz tudo em grande escala, em massa. Tudo segue um padrão, cada objecto é precedido e continuado por milhares de outros exactamente iguais. Desde roupas a brinquedos, peças de mobiliário a automóveis tudo encaixa num grande esquema de repetição metódica e exata, numa grande máquina que é a economia contemporânea onde tudo tem de dar para todos, onde se perde o “eu possuidor” e se cai num poço de trends, modas, onde predomina o “nós” - aquilo que possuímos tem valor porque segue uma regra, uma maioria dominante, e merece mais ou menos apreciação conforme se afasta ou aproxima dessa imagem; o que importa realmente é que tudo seja exatamente igual.
No meio de tudo isto algo se perde. Quando pensamos num objecto, quando participamos na sua construção deixamos necessariamente algo de nós, por mais ínfimo que seja, presente na sua forma, no seu sentido. Algo de nós passa a ser parte do objecto. O que há de único, de original, o que o liga ao seu criador é um ponto de partida para cada um estabelecer uma conexão com a peça e, por associação com quem a pensa e faz. Estes laços, estabelecidos inconsciente e involuntariamente, vão-se tornando mais tênue à medida que perdemos o contacto com artigos do dia-a-dia que nascem dessa criação individual. Relações e interpretações infinitamente variadas podem ser feitas tanto para algo que provém de uma produção mecanizada e a uma escala global, como para algo que foi cuidadosamente pensado por um indivíduo. Mas no primeiro caso a relação estabelecida é uma de pessoa-bem material; e pára aí. No segundo caso a conexão feita estende-se para além do material, e chega à vida, à história de quem o criou. E quando se trata de arte, não são essas misturas e ligações de histórias que se procuram, que interessam?
Aqui queremos mostrar os dois mundos. O que nos rodeia, que nos absorve e, simultaneamente, nos íntegra, nos torna parte de um coletivo. E o outro, mais pequeno, que tantos artistas encontram nas suas oficinas e estúdios, nos seus espaços criativos, um mundo que valoriza o “único” de cada tentativa, os esboços e ensaios, a impossibilidade de repetição e a felicidade de encontrar, em cada tentativa, toda uma rede de novas imagens, posições, visões e pensamentos possíveis. Um mundo que não procura a produção de algo regular, exato e perfeito, porque reconhece e aprecia o que é encontrado no erro.
Contrapomos os dois mundos, e convidamos à reflexão no valor de cada um deles, se o crescimento de um tem de significar a perda, o desaparecimento do outro, ou se ambos conseguem e devem coexistir num mundo moderno, preocupado com o conforto, a imagem, a facilidade e o acesso, e ao mesmo tempo com o pensamento, a reflexão e a criação.
Coletivo Paprika
